Teu Silêncio!

Olho-te bem devagar.
Há sempre uma verdade
a ser descoberta,
uma porta fechada,
uma janela entreaberta,
uma luz apagada,
um brilho varando pela fresta.
É preciso desvendar detalhes,
tocar teus limites,
trocar nossos olhares,
concedermo-nos nos ver
e, até onde me permites,
conhecer o que omites,
o que não deixas transparecer,
tatear o que me escondes,
desabotoar tuas pausas,
compreender tuas causas,
aceitar-te como és.
E no silêncio da resposta
que me percorre e corrói
mergulhar em tua fala
gritante,
berrante,
calada,
que dói
mas que ama!

Apelo!

Venha!
Venha mais cedo!
Venha olhar-me nos olhos
antes que fujam,
envergonhados,
por alguns fragmentos
de desejos ousados.
Venha!
Tenho para você
a essência que invade a penumbra.
Tenho o aroma
dos seus lençóis preferidos.
Os mesmos
que recendem o infinito
e reacendem intensidades.
Sei de você
antes que se apresente.
Apenas sei.
Então, venha!
Venha sorrir comigo
sem saber a razão.
Traga-me os seus toques,
seus traços únicos.
Cruze a linha invisível
e torna-me,
sem recear,
eternidade sua.

Maria Luiza Faria

Via Crucis!

E, então, decidi
despojar-me de todos pecados,
ser meu próprio Pôncio Pilatos,
ter meu corpo crucificado.
Não para salvar a humanidade:
não me crivaria de tamanha dor.
Cristo foi mais sonhador.
Não, foi mesmo autopiedade,
da alma,
em busca de serenidade.
Caminhei com a cruz
a que me impus.
Não caí somente três vezes.
Foram muitas!
Já havia tombado tanto,
pelo peso de meu pranto,
por minha consciência pesada
em não ouvir a voz da razão,
nem mesmo a do coração.
E, agora, Via Crucis,
levo-me à condenação.
Fui Verônica.
Cantei o meu desencanto,
limpei sangue de meu âmago,
deixei registrado no pano
o meu triste desengano.
A Madalena arrependida,
pelo homem incompreendida,
agora cheia de dores e acatos.
Vítima dos desacatos.
Tentei levantar-me,
ser o meu Cirineu,
reacender a chama
que um dia morreu.
Momento sublime.
Maria, mãe que redime.
Um encontro,
um olhar,
nem foi preciso falar.
A única expressão:
a de nosso coração!
Sedenta de amor,
bebi o seu mel,
desnudei minha alma,
arranquei-lhe o véu
e chorei.
Implorei.
Ajoelhei-me
e, finalmente,
enxerguei uma luz
semiapagada,
de um sol eclipsado
recomeçando a acender.

Crença!

Creio em ti!
Antecipa-me o céu.
Bem de leve,
sem escarcéu,
clareia-me a escuridão.
Mar de atrocidades,
turbilhão,
onde a hipocrisia se cria
gerando só falsidades
e a poesia se esconde
em meio à desarmonia.
Anseio a paz que há em ti,
reviver o que já cri.
Abre-me portas,
janelas,
incita meu voo livre,
ampara-me em tuas asas
que de junto de mim convive.
Preciso do ar que exalas.
Ouvir de teu coração
a melodia que espalha
ressuscitando emoção.
Devolve-me a paixão esquecida,
me faz forte,
guarida.
Põe-me diante do novo,
de novo,
diante da vida.
Estanca a minha ferida,
sopra de mim essa dor,
livra-me de qualquer rancor,
devolve a fé que perdi.
Só tu podes.
Creio em ti,
pois és o amor!

A poesia virá!

E a poesia virá
nascida de todo lugar:
livre,
plena,
pura,
apesar do breu da noite
que traça mistérios no ar
ocultando a lua insinuante que,
através de uma nuvem entreaberta,
revela um brilho de sedução,
provocando um fascínio ofegante
que prontamente despertará.
E a poesia virá,
quando ao abrir os olhos
vir a noite virar dia
colhendo toda a alegria
da manhã que sugere renascer
encobrindo a nostalgia
de um sol que se faz poente
e languidamente
desmaia no horizonte
após a tarde,
a despedida,
e calmamente se vai.
E a poesia virá
quando a esperança ficar.
Ainda que a dor atormente,
o mundo tornar-se descrente,
o sofrimento teimar em arder
queimando o cerne da gente,
a alma só ganhos terá
lapidada pelo ourives do tempo
trazendo a certeza de que passará.
E a poesia virá,
simplesmente,
sem palavras,
brandamente,
com o silêncio que se fará,
traduzido pelo encantamento
dos versos que o poeta interpretar,
enlevado pela emoção
de quem fala sem falar.

Sem Poesia!

Quando acabar a emoção,
preponderar a razão,
traçarei a minha trilha.
Nenhum envolvimento
que arrebate,
nem a luz que da estrela brilha,
nem tudo que se interpõe,
de repente,
no caminho,
e nos propõe um embate,
pressionando-me a indagar:
fico ou me deixo levar?
Nada me fará parar!
Quando não houver mais emoção
e puder contar com a razão
recomeçarei a vida.
Direi não ao coração,
às armadilhas sutis,
artimanhas febris
forjadas pelo destino.
Às oferendas do mundo,
às cores,
dores,
flores,
amores.
Seguirei em frente,
usarei o tino
ilesa a sentimentos profundos.
Mas como projetar os sonhos?
Sem alvoreceres,
como sonhar?
Desprezar entardeceres do outono?
Sem arrebóis volveriam os girassóis?
Os amanheceres,
a chance de recomeçar?
Pode o poeta viver sem oferendas,
belezas que trazem o dia,
as dores,
os amores,
as flores,
os sentimentos?
Seria negar a todo momento
o dom divino de poetizar.
Morrer a cada dia,
sufocar o que precisa extravasar.
Trancar para si a poesia
e omisso,
se calar.
Deixar à deriva os versos,
a rima sozinha a bailar.
Matar o que alivia,
se suicidar!

Transformação!

Retira o cinza da vida,
pinta-a com a leveza das cores:
suaves,
amáveis,
amenas,
penetráveis à alma, apenas,
à espera do facho de luz
que conduz,
estimula à calma
e induz ao encontro da paz.
Enxuga o pranto salgado
molhando o rosto cansado.
Mostra que sabes sorrir.
Inventa motivos.
Eles hão de vir
enterrar os já saturados,
os novos serão festejados
com bailados,
flores e cores
em qualquer jardim.
Faz isso por ti,
por nós,
por mim.
Dança com o por do sol,
vibra a estrela cadente
riscando teu âmago ardente.
Lixa a aspereza do corpo,
mergulha-o em águas fluentes
onde haja rosas,
ninfas e duendes.
Desequilibra o lúcido,
o insano.
Pende para a loucura,
por instantes,
intervalo para a inspiração,
suporte para a transformação.

Percalços!

Agora que já fomos tão longe,
enfrentamos temporais, sufocamos nossos ais,
amparamo-nos,
um ao outro,
nas derrocadas.
Choramos,
dançamos,
demos gargalhadas,
brigamos como todo casal normal.
Amamo-nos
e feito cúmplices,
em segredo,
guardamos em silêncio nossos momentos.
Inesquecíveis momentos.
Os mesmos que agora jogas para o ar
esperando que o vento os venham dissipar.
Agora que já fomos tão longe
pedes, irredutivelmente, para eu voltar.
Voltar pra onde?
Esqueci o caminho.
Tua caminhada foi meu pergaminho,
andei teus passos
sem olhar para trás,
cegamente obedeci aos teus comandos,
pensando, um dia,
encontrar a paz.
Mas, teimas prosseguir sozinho,
de meus carinhos
que hoje se desfaz.
São as intempéries do destino,
dragão demolidor de sonhos,
que faz do tempo
um momento breve
onde a volta não se cogita jamais
e o percurso se resume em ida
nesse curto espaço que se chama Vida.

Espelho!

Que espere a emoção!
Dê-me um tempo a inspiração.
Rasa de sensibilidade,
encontro-me com a verdade
de cara lavada
sem máscara ou vaidade
frente ao espelho.
Quem sou?
Ele nunca revela.
O lado que mostra
é o que me prostra
e o que todos veem.
Retrato mal formulado,
moldura sem essência:
minha passiva armadura,
defesa de meu ponto fraco.
Meu exterior de agruras
que tento esconder.
A fragilidade oculta
não deixa transparecer.
Minh’alma não espelha
e preciso saber
o que ela quer de mim.
Como mostrar-me nua,
se a nitidez ofusca
e é o que quero transparecer?
Encobre as perfeições
mantidas bem guardadas,
veladas,
consagradas,
para os tempos de expiação.
Reflete as evidências,
o óbvio,
as certezas.
Esconde o coração.

Busca!

Busco o sonho guardado
em uma esquina qualquer do tempo.
Com um sopro,
o faço reviver,
após anos de cárcere privado,
vindo agora me surpreender,
realizando o desejo mais esperado.
Traz o hoje,
presente embalado
pela essência do inesperado:
a certeza do que se pode viver,
descartando desperdícios
de instantes fracionados
e contados,
mofados pelo ócio de se perder,
apostando no amanhã
que pode não acontecer.

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