Talvez!

Talvez
O tempo reverta
a pálida esperança
em crescente certeza
e me traga a surpresa
de um bem inesperado
que nem sempre se alcança.
Talvez o amanhã retroceda
ao ontem ininterrupto
e o estenda ao futuro
ou tudo fique na mesma.
História que tento mudar,
rima que não quer mais rimar,
poesia que já não se faz notar:
enfatizada,
mastigada,
engasgada.
Talvez
o hoje vivido
tenha valido
uma eternidade
e meu eu distraído
não tenha medido
tanta felicidade
nem notado as manhãs
de belezas louçãs,
momentos desprezados
na espera do amanhã
que talvez nunca venha
ou se faz de rogado.
Talvez
esses versos piegas
sejam fiéis mensageiros
de um tempo verdadeiro
e mensagens sinceras,
carregando bagagens
de sonhos e miragens,
gerúndio se estendendo
em todos os tempos
trazendo-me a chance
de continuar sendo
mesmo em um tempo já ido,
mesmo sem nunca ter sido.

Eu!

Incógnita de mim.
Insolúvel teorema.
Solução e problema.
Simplicidade. Complexidade.
Mentira e verdade.
Imperfeição.
Eclipse solar.
Lunar.
Total,
parcial,
penumbral.
A busca da claridade.
Não e sim.
Começo,
meio (aturdida)
e fim.
Ilha perdida.
Arquipélago da vida.
Barco à vela.
À deriva.
Onde ancorar?
Brilho do sol.
Arrebol.
Crepúsculo e cores.
Primavera.
Beija- flores.
Borboleta.
Flor que não se encontra.
Eu:
nó,
nós.
Coluna.
Coliseu.
Amor.
A cotovia,
o canto,
a dor,
o pranto,
o riso,
o acalanto.
Pergunto-me:
onde me acho?
Em qual plano?
Rio?
Mar?
Oceano?
Ou apenas me engano?

Felicidade!

Coloca a alma na janela
e a luz que adentra por ela
descongelará o frio que ficou.
Quebra seu silêncio,
solta sua fala.
Há tanto a dizer:
tudo o que calou.
Liberta o que resvala,
verdade que abala,
motivo a que se rende.
Nada é para sempre.
O bem também acaba.
Não deixe que se vá
trilhar o mesmo trilho.
Agarra-se ao que edifica,
faz feliz e dignifica.
Escolhe outras cores,
viva outros amores,
muda as fragrâncias,
as flores,
dá novo sentido à vida.
Sai da zona de conforto,
desfaz os entrelaces
do que está morto.
Mergulha nas emoções,
ousa os turbilhões,
ancora em outro porto.
Abraça as chegadas,
acena às partidas,
busca o que precisa.
Sorri,
vive,
persegue o que creu
para que não se arrependa
de tudo o que ,um dia,
poderia e se perdeu.

Minha Poesia!

Junto-me à sensibilidade
e à tudo o que lhe faz parte:
o suave desabrochar da flor,
a beleza infinda do final da tarde,
à rima que se perde à revelia
e se arrima onde explode a euforia.
Ao verso que quer se declarar
e, de repente,
fala sem falar.
À angelical bailarina,
à arte que predomina
e desalinha o próprio coração
descompassado por tamanha devoção.
À canção que virou saudade,
com acordes que me persuadem
induzindo-me através do tempo
e passando devagar
por onde já nem lembro.
Junto o amor e a dor.
amar é sorrir,
é chorar.
À alma vigilante e inquieta do poeta,
usurpador de sonhos,
caçador de fantasias.
Às cores outonais da nostalgia
pincelando as manhãs da estação
embaçadas de orvalho
e de paixão.
E assim vou compondo.
minha poesia.

Manhã!

Amanhece.
Entrego-me aos braços da manhã
confiante na luz a me banhar.
Clarão.
Aninho-me em seu colo.
Decolo.
Alma desprendida alcança o céu
e o traz para dentro de mim,
e o faz fazer parte de mim:
liturgia ungida de sacramentos.
Portas abertas,
meu corpo é templo
a contemplar a letargia do momento
sacro,
na fé que em meu corpo guardo,
ainda que todas as mazelas do tempo
destoem a oração do dia,
a homilia,
surdas aos cânticos melodiosos da manhã,
à brisa que sopra a ternura do amor,
manto divino onde abrigo meu interior.
Regressa.
Com suavidade,
sem pressa.
Sua luz não escurece.
Perpetua-se em cada coração.
Resplandece em cada oração,
na esperança que o dia oferece.
Manhã que nasce feito prece.

Somos!

Invade a minha vida,
preenche o meu contexto,
poetiza-me em tua alegria,
protagoniza o meu texto.
Colore a minha paisagem,
reacende luzes apagadas,
sejas o sol de todo dia,
incandesce minhas madrugadas.
Floresce meu canteiro triste,
vibra o ardor que em mim existe,
ruboriza o tom vermelho,
refletindo teu corpo em meu espelho.
Ama-me de todas as formas
em cada instante,
o tempo inteiro.
Sou tua vontade,
tua fome,
tua metade.
Somos recomeços
dos amores verdadeiros.

Enamorada!

Quero entardecer contigo
ser o teu abrigo,
o final da tarde,
o teu arrebol,
onde cores descoradas,
fracas,
embaçadas
tornam-se caiadas
sem a luz do sol.
E, na linha do horizonte,
onde o céu se funde
com a terra ou o mar,
pendurar todos os versos
que a própria vida
vem nos ofertar:
eterna enamorada!

Coração Desajuizado!

Meu coração atrevido
desconhece as leis da vida,
a gravidade que nos alicerça
nessa incrível viagem:
voar,
levitar,
pousar,
mudar de patamar.
Por mais que tenha vivido
nunca se vê abatido,
ainda impulsiona o ir
embora o físico,
sem ar,
queira ficar.
Não sabe que o tempo passa
e a pulsação descompassa,
enrosca-se nas entranhas
das ousadias,
nas retrancas
das finitudes de sonhos
e utopias.
E o coração insiste,
jamais desiste.
Atém-se ao que prevalece,
ao que regozija
e entorpece,
certo de que assim não envelhece.
Quer pulsar,
explorar,
conquistar.
Rende-se à tentação turbulenta,
à sedução das paixões fraudulentas
que avassalam e se vão,
mas sempre deixam lição.
Capta qualquer emoção.
Acelera o ritmo,
sem noção.
Encanta-se com quase nada:
a brisa que passa,
um sonho de valsa,
um beijo,
uma flor.
Vive o que o conforta,
o que lhe importa.
Coração desconhece razão
por ser tão limitada.
Rígida na partida,
precisa na chegada.
Vai, coração,
embarque na fantasia,
viva o que o extasia.
Vai onde hoje não posso ir.

Sem rédeas!

Solto as rédeas.
Deixo o pensamento
comandar o momento.
O importante é me entregar,
decolar desse porto sem cais,
abandonar o navio,
o vazio,
caóticas e insolúveis situações.
Ir onde ele bem me levar
sem temer o que virá,
o que verei,
o que será.
Roletar direções,
represar previsões
que erram a todo instante,
incorrendo em tempestades
as imprevisões diárias.
Por ora,
viajo com meu pensamento
liberando endorfina:
combustível para meu pensar;
oxigênio para meus neurônios,
sem saber onde vai dar.
Circundando a rosa dos ventos
tatuada no tempo,
em sonhos e irrealizações,
disperso poemas,
sentimentos guardados,
chorados,
calados,
inerentes aos temas
que já não estão sobre as mesas.
Um pouco acima do chão
deixo um vão
entre o abstrato e o concreto.
Talvez uma passagem
para algum amor secreto:
um decreto publicado em poesia
em pleno trajeto.
Voo com meu pensamento
até onde possa voar.
Com ele tenho alento,
paciência para me adaptar.
E volto resiliência,
apta a continuar.

Rupturas!

De repente, a expulsão.
Rompe-se o cordão,
o calor daquele abrigo.
A união umbilical
rompida pela contração.
O frio,
o desconforto,
o susto que faz chorar,
o ter que encarar
a separação.
O mundo.
De repente,
cerra-se a cortina,
muda-se o cenário,
embaçam-se as luzes,
tremula a ribalta
de um palco improvisado:
perguntas impertinentes,
respostas não condizentes,
personagens alternadas,
história remexida,
show irreverente.
A vida.
E as rupturas se vinculam.
Começo de caminhada,
o papel,
as linhas tortas,
o branco sendo tingido,
o sentido das palavras,
o destino a se cumprir,
o tempo a exigir.
O tempo.
Fase da colheita.
Colher o que se plantou.
O cultivado, permanece.
O resto, esmorece.
Bem que se pudesse
o tempo pararia.
Uma nova chance.
Começar o novo.
Não, de novo.
Carpe Diem.
Vem o cansaço,
o descompasso,
o desejo de parar
e a vontade de chorar
as partidas,
despedidas,
amigos,
entes queridos,
sonhos não vividos
truncados pelos caminhos.
A realidade.
Saudade.
Às vezes,
a felicidade.
Momentânea,
raridade.
De soslaio ela invade
e se vai sem alarde.
Reta de chegada.
Fim da caminhada.
Início de outra jornada?
Atrela-se a ruptura.
A última,
derradeira:
ou seria a primeira?
Maktub.

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