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Erotismo!

Erótica é a urgência da pele. O sussurrar dos poros, os sonhos, e a mistura de duas peles que se buscam. Erótica é a viagem dos sentidos, a nova maciez, o desenho reinventado, os esboços que se compreendem. É erótico o sentimento que se desprende e acorda. É erótico o deslumbramento do côncavo que agasalha a tez sedenta. É a vida que se define em sintonia, em desejos múltiplos, justos, alimentados. Erótica é a urgência da pele. As profecias confirmadas, o beijo que sorve a poesia antiga, o suor que exala as proibidas confissões, os tremores permitidos, os mares de sofreguidão e raridades. Erótico é o sussurro último do rubor das duas peles. (Maria Luiza Faria)

Sonho!

Procura andar onde o coração pede, onde seu passo insista em estar para que o sonho deslize a contento de seu imaginar. Espera o momento certo, aquele que avisa a hora de vestir a fantasia, o instante da transformação, da abstração para o concreto, da mente para a consumação. Invista no sonho: é combustível para a vida, janela para a liberdade, é estar aqui dentro, estando lá fora a buscar entre perdidos e achados, a verdade. Então poderá voar à procura do sonho mais bonito: aquele que não está escrito em qualquer página de livro e, que, de improviso leva às estrelas.

(In)lucidez!

Prefiro o desequilíbrio lúcido a revirar sentimentos calados fazendo barulho para manter-me viva. A seguir outro compasso na contradança da vida, que contraria e impede a valsa. Prefiro perder-me de vista e reencontrar-me nova, onde se entremeia a pista que, a todo instante, se renova no salve-se quem puder e salvarem-se todos, entre mortos e feridos. Prefiro atalhos cerzidos, remendados um a um, à reconstrução de caminhos que não levam a caminho algum. Entrego-me ao inesperado, ao sonho inusitado, às contradições do dia, à luz de cada manhã, à espera compulsória, ilusória, alienada ao mistério não revelado da incerteza do amanhã. Prefiro-me a mim, como sou, assim, (in)lucidez que vibra a cada lampejo do sol, com as miudezas da rua, com as voltas do girassol, com a nova fase da lua.

Súplica!

Impede-me! Tira-me o chão, o rumo, a direção. Corta minhas asas, impede-me de voar! Arrebata-me os sonhos, meu direito de sonhar. Veda-me os olhos: “O que os olhos não veem, o coração não sente.” Mas pressente! Lacra-me o sorriso. Sorrirei com a alma, com a mente. Escreve meu destino, registra-o em teu pergaminho. Cerca meus caminhos, obstrui meu caminhar. Excita-me a sede, mostra-me a fonte a jorrar. Aprisiona meus sentimentos, em catarse virão me encontrar. Cala meus pensamentos: juntos não vão dispersar. Sequestra minha identidade, tudo o que há entre mim e mim. Anuncia meu fim. Contudo jamais roubarás o amor que me faz assim.

Versos!

Trago na boca sabor de sol, calor incessante a aquecer o sonho. No olhar, a luz jorrada pelo arrebol, acesa pela esperança de um porvir risonho. Na garganta, a voz rouca de quem silencia o brado resguardado a esperar pelo dia de se fazer ouvir o que a alma fala. Trago nas mãos a calosidade da lida, missão por hora cumprida, o que me reservou a vida, simples guarida, acervo de minhas rimas e composições, palavras recolhidas de minhas emoções levando-me onde bem quero, onde almejo e espero a realização dos sonhos. Trago na alma a lágrima do inocente que, ao se calar, consente, a culpa que jamais foi sua, julgado a revel, justiça incomplacente, verdade inconveniente, injustiça a prevalecer, e o culpado jamais castigado. Minha impotência em só descrever fragilidades em estrofes e versos captadas de um mundo adverso talvez possa ir além de escrever: um dia toque o ser insensível e quem sabe fale ao coração de alguém.

Causa Mortis!

A lágrima já não chora, seca ou deixa de nascer, o riso perde a graça não há razão de ser. A dor se fecha em silêncio, não mais vigora, cansa de doer. O verso que antes sorria e atrevia a inspiração, de morte quer se prover. A arte nobre do artista passa a ser vista sem admiração. A sensibilidade, mãe que gera a verdade, vira insensibilidade. O ar rarefeito impenetra o peito, defronta o pulmão, não há mais efeito, ação, reação. Não há coração. Banaliza-se a essência, de carência o amor se faz, o homem sem consciência, petrificado jaz. Perde-se a ternura no cais da desventura, em portos que não se veem mais a brandura dos abraços, a tristeza dos jamais. Auroras perdem belezas, horizontes embromam linhas, a morte peregrina, a vida se desfaz.

Navegante!

Navega, pensamento: cruza os mares, enfrenta as marés, acalma a turbulência, germina os ares da mais pura essência. Desperta os sonhos que geram resplandecência. Junta-te a eles, percorre a luz, inebria-te da luminosidade. Perde-te nesse clarão, fecunda-te de significados, percorre o infinito alheio ao sol eclipsado, ignora a escuridão. Cresce seguindo sempre a melhor direção. Navega, pensamento: não temas as calmarias. Insiste em teu intento mesmo que não haja vento, ainda que na contramão do tempo. Iça as velas do teu barco, vive esse momento, peregrino bardo. És livre, podes seguir em frente, alcança o teu desejo, tu, que podes navegar, busca o teu ensejo, realiza os sonhos que eu sempre quis realizar. Vai, adentra as brumas do oceano, desvenda-lhe os mistérios, arranca-lhe os panos, envereda-te em seus encantos reais e surreais, constrói os teus castelos, povoa-os de ideais e volta para me buscar.

Estratagemas (a vida em ão)

Perco o chão prendo a respiração ouço meu coração. Vibro de emoção, morro de paixão, transbordo excitação. Canto uma canção, toco um violão. Digo sim e não qualquer que seja a razão. Fico na solidão só, na imensidão. Grito um palavrão em prol da libertação. Saio da prisão: o sol embaça a visão habituada à escuridão. Olho para a multidão andando sem direção. Arrisco uma reflexão, faço uma confissão, entrego-me à oração, me doo à conversão, me agarro à religião, libero a devoção sem noção ou pretensão. Discuto a relação: eterna procura de solução. já tenho o não. Quem sabe um sim, então. Por que não? Procuro temas, estratagemas, cenas isentas ou não de problemas, obscenas ou serenas, profundas ou amenas. Enfim, busco da vida o poema.

Lembranças!

Trago nas mãos, uma colcha de esperas. Um querer feito de silêncios, alimentando orvalhos. Guardo nos bolsos, retalhos das manhãs, que recolhi, na vã ilusão de viver um dia. Carrego na alma, palavras inaudíveis que talvez nunca sejam ditas. Trago nas mãos, gestos tão ternos, impossíveis de serem traduzidos.

Labirintos!

Às vezes me perco, nesse labirinto de mim. Procuro nas curvas, nas esquinas, nos cantinhos escondidos da alma por momentos que me tragam a calma, que me devolvam a leveza dos dias. Procuro e procuro e, enquanto vasculho, busco a magia. Levo estrelas nos olhos e olho por todo lado. Ilumino o caminho com o verde esperança, da relva macia, das folhas e ramos, do lume dos pirilampos, e sinto que me encontro nesse meu labirinto. É só olhar para dentro e ver o que apenas eu sei o que apenas eu sinto. E sei onde tudo se esconde, onde começa e por onde andei, até onde quero que vá, por onde quer que eu ande. Pois sou o início, sou a estrada e o olhar. Sou o caminhar sem pressa, sou o trajeto que escolho, sou a próxima parada onde me recolho e me encontro. E, por fim, sou o destino de mim.

Campo de Girassóis!

Eu quero um campo de girassóis para abrigar esse amor, para não sermos dor e para nunca mais sermos sós. Eu quero a suavidade dos girassóis, para sentir o toque, o teu beijar de calma, da tua alma na minha. Eu quero o encanto dos girassóis, para saber da magia e, à tarde, na tua luminosidade, me esconder. Eu quero a claridade dos girassóis, que é para sermos sol, que é para sermos nós. Quero minha alegria de viver e, ao nublar dos dias, quero ser um olhar dentro desse nosso olhar, em direção a um campo de girassóis.

Certeza!

Haja o que houver, estarei aqui. Nas fendas do tempo, no itinerário do vento, nos confins do mundo, nas sendas do destino, no desatino dos dias, na quietude das noites da minha solitude e haja o que houver espero por ti. Estarei aqui, onde o sol nasce e onde se esconde. Estarei no murmúrio do mar, no mergulho da garça, na algazarra da praça, no barulho da chuva, no cheiro da terra molhada, na infinita estrada que te traz a mim. Estarei no voo rasante do pássaro, na corrente mansa do rio, no calor e no frio do teu corpo, na dança das folhas na tua janela, no ramo que o canário traz para fazer o ninho. Na coreografia silente dos peixinhos no aquário, no teu cantinho: Templo sagrado, teu relicário onde encontras paz. Estarei em tudo o que existe, em tudo o que fazes, em tudo o que sentes, pois habito em ti. E tu estarás em tudo o que quero, em tudo o que espero: és o melhor de mim. Não quero que fiques triste: haja o que houver, estarei aqui. Nas fendas do tempo, no itinerário do vento, nos confins do mundo, nas sendas do destino, no desatino dos dias, na quietude das noites da minha solitude e haja o que houver espero por ti. Porque em mim tu estás.