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A Dor do Poeta!

Arranca, poeta, a dor dentro do peito, lembra-te de que, para tudo, há um jeito imbuído no lirismo ao encarar a vida. Sorve tuas palavras, prevalece teu dom: aquele que ousa ressuscitar a flor quando despetalada pelos campos. Mostra ao mundo do que és capaz. Chora tua dor em versos, registra-a no papel em branco, no branco que simboliza a paz. Geme em rimas a dor maior fincada na essência de tua essência, aquela que não mais quer sentir e persiste em tua existência. Desabotoa as aflições que te sufocam, lembra das estrelas que se apagam e voltam a brilhar em galáxias distantes trazendo o brilho mais brilhante. Sorri ao te defrontar com o oceano. Chora de emoção por cada gota ofegante. Devolve ao mar tuas lágrimas salgadas e resgata a alegria arrebatada em um instante. Faz, poeta, o que a alma pede e a razão acusa. Canta alto tua poesia, desperta tua musa deixando a emoção rasgar a flor de tua pele. Tece a tua poesia, poeta, em busca da felicidade.

Vagando!

Sem planos, investindo nos sonhos, apostando na sorte e na sensibilidade que excita a pele e aos devaneios impele. Vou seguindo por aí, buscando o que me abastece. Sem rumo, sem norte, sem pensar no amanhã, no mais tarde. Vou levando meu barco para o lado que me aprouver, do jeito que me convier. Destino de um bardo enfrentando marés, desafiando dilúvios com bravura, sem alarde. A sofreguidão me invade em noites de lua cheia sob o luar que prateia. No início das manhãs, oferendas louçãs trazem o silêncio sagrado: momento tão esperado para a alma de um menestrel que louva, enaltece, faz prece, olha para o céu e agradece.

Não mais!

Não mais a inocência estampada, tatuada no rosto, no gosto, nos traços, nos passos da ingenuidade. Tenra idade, quando a verdade feito um baluarte sustentava a vida chamada Felicidade. Não mais a magia do encanto, do surpreendente rondando os cantos, do inesperado sendo realizado, da alegria em sorriso franco. Não se escrevia: via-se a poesia, pintada em um cenário surreal, interpretada pela euforia de cada coração onde a emoção brincava além das fronteiras ultrapassando o ápice da abstração. Não, agora não mais assim. Nada acabou, tudo se transformou. A ingenuidade virou maturidade, a inocência chegou ao fim. Felicidade se reduziu a momentos poucos, parcos, finitos enfim. A vida mostra uma outra face, cara lavada, sem disfarces. O mundo ficou pesado, profundo, o sorriso não sai espontâneo, o encanto gera desencanto, mas ainda resta a poesia. Nada ou ninguém irá roubá-la. Ela traz a primavera todo dia, bailando no ar. Vibra a emoção adormecida permeando sonhos que persistem, refletidos nas flores, nas cores, nos amores que ainda existem, vivos em lembranças que, hoje, se chamam Saudade.

Sem Poesia!

Senhor, perdoa-me o despautério. Devolvo-te a inspiração. Sinto cometer um adultério, traindo a voz do coração. Meus versos perderam a alegria, caminham sisudos pela poesia. Meus lábios não dizem o que sinto, contradizem minhas palavras, meu olhar. Tento enaltecer o amor que, de tão raro, se codificou. Quero descrever o belo que perdeu o viço e se esfacelou. Perdi-me no compasso, tropecei nas rimas, fugi de meu estilo buscando o que me anima e, a cada passo, um descompasso me abomina e o poema segue falso, sem autoestima. Por isso, meu Senhor, me encontro à deriva. Para que inspiração se falta emoção? Para que a poesia se já não há fantasia? Não sei se me perdi ou me perdeu a vida.

Mundo!

Lá fora me chama o tempo e, incansável, meu nome proclama ecoando nas marolas do vento, ora brando, ora turbulento. Aqui dentro, mundo imaginário, eu me retranco. Burlo as leis do calendário, horas, dias, meses e anos e deixo o tempo ir, sem resposta, sem realizar o que mais gosta. Retiro as travas da alma, libero o que me acalma: emoções sinceras e retidas que, em catarse, se manifestam contra as opressões da vida. Abro uma janela no peito, meio que sem jeito, exangue, e a luz, antes como um bumerangue, penetra agora interior adentro, reacendendo minha existência, meu pensamento, minha essência. Revela o amor adormecido na invisibilidade da abstração, entre as metáforas, escondido, nos textos mudos e não ditos, nas entrelinhas da composição. Ah, tempo, passe a contento, não mais importa que me chame o vento, pois no mundo em que me adentro, a poesia rompe ao romper o dia, o amor é amor de fato, é nato e a fantasia se tornou real.

Arte!

Arte Caminho o percurso de sempre. Percorro o que não condiz com minha mente. Um desassossego invade meu ser, arrasta-me para ver o que ali não existe. Sussurra-me aos ouvidos: ouça! Paro, mas a inquietude persiste. A melodia insiste em ressoar a trilha sonora que me persuade. Uma força misteriosa me invade. Rendo-me. Deixo-me levar por ondas magnéticas até onde o sonho permite. E ele jamais impõe limite. Minh’alma deixa aquele lugar. Lá estou e não estou. Sem impasse, encaro o desafio. Reconheço-me na arte, no que me impactou, em toda a beleza que se esconde na pura expressão de amor: força movedora a segurar o tempo. Arrebatada pelo mistério de sua magnitude, vejo toda a plenitude de seu esplendor e ainda me sinto faminta de vida interior. Comparo. Arte está imbuída na mística da fé. Ambas ocupam o mesmo patamar. Movem, comovem, removem. E de lá volto ao mesmo lugar onde me deixei levar, meu cais, com a grata sensação de ter conhecido a paz.

Espera!

Quando tu não vens, meus olhos se perdem no escuro. Meus pés não tocam o chão. Flutuo entre densas nuvens: te procuro em vão. Como olhar as estrelas, se elas se escondem no teu olhar? Sinto-me tão só. A lua não aparece. E, de manhã, nem sei mais onde nasce o sol. Quando não vens, meus braços ficam vazios, faz frio no meu coração. Minh'alma fica em silêncio, emudece em solidão: não escuto mais aquela canção. Pensas que em algum momento tua flor te esquece? Ela arrefece sem teus passos no jardim. É assim: tua flor de jasmim renasce apenas quando tu vens.

Fábula!

Entediante é a vida nua, concreta, vivida. E eu já não cria na existência de laços, espaços, anjos, fantasia. Sem compartimentos para armazenar alegria, passei a arrastar-me na brancura dos dias. Eis que sem entendimento, à minha revelia, fui levada a mundos tão diversamente leves onde o viver me aprazia.

Saciedade!

A saciedade mais a fome trouxe-me a fartura, e lembrou-me o jejum. Veios se abriram, sangrando. Uma sede inesgotável nasceu. Ausências me povoaram e um medo antigo ocupou-me. A saciedade me penetrou com seus vazios, encharcando-me de esperas.

Impressões!

Estou de passagem, tu sabes. Estás de passagem, eu sei. Deixa que eu grave em minhas digitais a tua travessia ou deixa que eu grave minhas digitais em tua travessia. Tanto faz!

Hei!

Hei de amar-te: com a lucidez dos cegos, com a serenidade dos pródigos, com a urgência dos meigos, com a volúpia dos mártires. Hei de amar-te: no abandono dos sustos, no intervalo das dores, no revés dos sonhos. Hei de amar-te: apesar dos limites do corpo, durante a suspensão dos medos, com a delicadeza que a dor me imprimiu.

Percepções!

Quando dei por mim o mundo havia mudado. Parei, embora o tempo não houvesse parado. As pessoas já não eram as mesmas. Afeições, aflições, feições, expressões. Estranhei. Procurei olhar bem por dentro, talvez algum indício em cada uma, um sinal que preenchesse essa lacuna ou me guiasse onde as pudesse achar. Ou me achar. Divaguei. Fiz da ilusão passaporte para o indefinido. Por onde andei esse tempo todo? Criei com minhas mãos terrível engodo. Nele mergulhei. Fuga insensata de querer permanecer, viver a utopia da poesia que criei onde o mundo era exatamente o que sonhei. Vi-me só ante a multidão que desconhecia, a mesma da qual me dispersei e pertencia e agora se afasta sem sequer me entender. Despertei. Perdi a contagem dos dias, dos meses, dos anos, das madrugadas varadas em desenganos, das manhãs em que nem via o sol nascer mas o descrevia como quem sempre o vê, sentindo seu calor e luminosidade, brilho ilusório de felicidade. Impossível voltar atrás no tempo, dizer às pessoas o que não foi dito, que me perdi no que foi escrito e foi escrito tudo o que senti, o que vivi e onde renasci.