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Percepções!

Quando dei por mim o mundo havia mudado. Parei, embora o tempo não houvesse parado. As pessoas já não eram as mesmas. Afeições, aflições, feições, expressões. Estranhei. Procurei olhar bem por dentro, talvez algum indício em cada uma, um sinal que preenchesse essa lacuna ou me guiasse onde as pudesse achar. Ou me achar. Divaguei. Fiz da ilusão passaporte para o indefinido. Por onde andei esse tempo todo? Criei com minhas mãos terrível engodo. Nele mergulhei. Fuga insensata de querer permanecer, viver a utopia da poesia que criei onde o mundo era exatamente o que sonhei. Vi-me só ante a multidão que desconhecia, a mesma da qual me dispersei e pertencia e agora se afasta sem sequer me entender. Despertei. Perdi a contagem dos dias, dos meses, dos anos, das madrugadas varadas em desenganos, das manhãs em que nem via o sol nascer mas o descrevia como quem sempre o vê, sentindo seu calor e luminosidade, brilho ilusório de felicidade. Impossível voltar atrás no tempo, dizer às pessoas o que não foi dito, que me perdi no que foi escrito e foi escrito tudo o que senti, o que vivi e onde renasci.

Leva-me!

Leva-me! Serei uma fresta, uma nesga, uma brecha, um atalho costurado em teu caminho o silêncio disfarçado, um pergaminho. Se, por acaso, te perderes no ocaso e te cegares o breu da escuridão posto-me à frente agora, sem demora e me dou-te em poesia, a mais bela criação.

Falhas!

Faltou dar significado à vida, viver o instante antes da partida, trancar a porta aos sentimentos precários, desnecessários para um transcorrer palpável. Renascer a cada dia de esperança e alegria. Faltou o recomeço, o afã de reinventar motivos para comemorar as artimanhas da sedução, o fetiche da paixão. Exorbitação. Faltou alimentar os sonhos que, enfraquecidos, morreram sem desabrochar, como um rio que nunca chega ao mar. Faltou caminho, chão aos nossos passos, espaço para cultivar o bem que seria as almas em união, corpos em comunhão, destino a nos conduzir ao nosso lugar. Faltou poesia. Versos se trombaram à revelia, sem sequer um gesto de amor, sem o encantamento da magia. Faltou fidelidade à essência, matéria-prima da existência. Encarar o fracasso como reticências. Faltou a demora na escolha das linhas e das cores na trama dos teares construindo o artesanato do amor na delonga que exige o tempo, seja lá quanto tempo for. Amor não se constrói da noite para o dia. Faltou futuro para tanta ousadia, faltou bravura a desenhar o futuro, faltou a firmeza do ancoradouro seguro. Faltou confiarmos em nós mesmos. Abraçarmos o que nos convinha. Contermos os desatinos. E sucumbirmos.

Mudança!

Abandona o cais. Navega. Engole os ais. Enfrenta as tormentas. Tu és capaz. Sai do ventre, rompe a bolsa. Desliza com a expulsão. Respira. Chora. Esperneia. Acata os desígnios da vida. Ela convoca; não convida. Supera idas e partidas, adeuses e despedidas. Recolhe os sonhos. Ainda há. Basta acordá-los e viajar. Escancara a janela. Observa por ela e o mundo está lá. Recomeça. Um dia após outro. Se preciso, hora após hora. Realiza o que te aflora, resgata o que perdeste e te impulsiona a seguir. Deixa pra trás o que não volta mais.

Ausência!

Ela dançava, ela sorria, ela esbanjava sua alegria. Ela nascia, ela morria e renascia co’a flor do dia. Ela vertente, ela nascente, leito e percurso da poesia. Corria mundos. Não poderia não fosse o dom da inspiração. Varava sóis, cobria luas nas fases frias de noites nuas. Ela esboçava e coloria os muros cegos de seus quintais. Trancava dores, calava ais, abria frestas para os amores. Juntava cacos da euforia e enfeitava os festivais. Vagava versos em sintonia com o trem das cores nas estações. Ela fazia e acontecia sem demarcar as emoções. Ela nascia, ela morria. Hoje ela jaz. Não nasce mais.

Desenhei-te!

Desenhei-me de ti. Soletrei tuas palavras. Embriaguei-me do teu falar. Bebi tuas promessas. Acreditei no teu alinhavo. Naveguei nos teus sonhos. Me fiz amor. Deitei sobre a paixão. Fui verdade. Senti teus beijos. Enlacei-me nos teus abraços. Desejei teu calor. Queimei-me de prazer. No desejar, sorvi o vinho. Embriaguei-me de teus sorrisos. Vivi a ilusão, mas fui verdade. Amei-te! E como rosa te perfumei. Dediquei-me. Desenhei-te!

Permita-se!

Sem medo, ame! Somos o fogo dos nossos anseios. Deliramos em nossos desejos. Buscamos a felicidade. Queremos a paz, o amor, a alegria. Precisamos nos permitirmos ser, inspirar canções, cantar! Balançar a rede. Sublinhar os momentos. Apreciar o nascer do sol. Ser nuvem, calmaria. Sentir o frio do luar e a névoa que a cobre. Abrir o véu. Enxergar além dos sentidos. Sentir. Apalpar com a alma. Ser a tolerância, o entendimento. Querer ser o amor. Amar intensamente, sem medo, sem preconceitos. Soltar as dores, as amarras, entregar-se! O amor não tem tempo, tem vida, paixão, razão, querer. Grite! Soletre o nome no delírio da poesia! Naufrague. Envolva-se. Arrisque-se a amar. Não tenhas medo: ouça a melodia. PERMITA-SE!

Pacto!

Compactuo comigo mesma. Coloco um filtro na realidade onde os sonhos mais urgentes não querem acordar. Purifico o que pode penetrar e me fazer melhor. Nada é pior que não tentar. Deixo levezas umedecerem o pó, lugares onde a aridez gerou trincas e a dor se infiltrou sem dó. Barro excessos. O peso torna-se indigesto, fardo que não quero engolir. Nada que me impeça de ser, crer, viver. Nada a fragilizar minha realização humana. Abraço conteúdos substanciais sem trair minha essência, meus ancestrais. Dispenso embalagens. São teias onde posso me enroscar. À luz do sol aceno. Arranco o filtro para ela entrar. Que se alastre, ocupe os cantos, seja festa. Faça-me pensar que toda hora é dia e a cada instante me vejo amanhecendo por todo tempo que me resta.

Mudanças!

Um dia tudo muda, os bastidores revelam o lado real: o fantástico se torna banal, os valores se desgastam e os que restam, agarram-se no ar. A ciranda perde o encanto não canta, não anda, não quer mais girar.

Livre!

Solto as rédeas. Deixo o pensamento comandar o momento. O importante é me entregar, decolar desse porto sem cais, abandonar o navio, o vazio, caóticas e insolúveis situações. Ir onde ele bem me levar sem temer o que virá, o que verei, o que será. Sortear direções, represar previsões que erram à todo instante incorrendo em tempestades as imprevisões diárias. Por ora, viajo com meu pensamento liberando endorfina, combustível para meu pensar, oxigênio para meus neurônios, sem saber onde vai dar: circundando a rosa dos ventos tatuada no tempo, em sonhos e irrealizações. Disperso poemas, sentimentos guardados, chorados, calados, inerentes aos temas que já não estão sobre as mesas. Um pouco acima do chão deixo um vão - entre o abstrato e o concreto. Talvez uma passagem para algum amor secreto, um decreto publicado em poesia em pleno trajeto. Voo com meu pensamento até onde possa voar. Com ele tenho alento, paciência para me adaptar. E volto resiliência, apta a continuar.

Aos Enamorados!

Hoje rimas reclamam versos: bailam pelo ar dissimulando os queixumes. Flores realçam cores e perfumes e se revestem das belezas do universo. Hoje, as dores pausam, secam o seu pranto, esquecem suas causas, silenciam ante a canção anunciando festa e festejam a vida que se manifesta. Hoje, o amor exerce seu poder e com força tamanha se faz prevalecer, surpreende o desencanto, sublima o inesperado, enchendo de encantos os corações apaixonados.

Insana!

E ela renasce a cada fase da lua: rouba-lhe o brilho e lhe ofusca o luar, percorre as estrelas seu insano olhar e penetra o negro véu, indo além do céu. De seus lábios um balbucio visceral profetiza um tempo que jamais haverá igual. De repente, dança em estranho ritual e a cada passo avança, imaginando-se normal, tomando para si cada pedaço do espaço sem se importar com a plateia atônita, que, aos poucos, se esvai, se descompassa pelos cantos a amaldiçoar a figura lacônica. Gira em torno de si toda sensação como em movimento de rotação. Pensa em trazer os dias e as noites, transladando cada estação. Sinistra, caminha com a lua que some no céu e ela na rua, e, como miragem, perde-se a imagem. Deixa o cenário de ilusões e desenganos: leva consigo a magia e o encanto.