paginanova

Manhã!

Amanhece. Entrego-me aos braços da manhã confiante na luz a me banhar. Clarão. Aninho-me em seu colo. Decolo. Alma desprendida alcança o céu e o traz para dentro de mim, e o faz fazer parte de mim: liturgia ungida de sacramentos. Portas abertas, meu corpo é templo a contemplar a letargia do momento sacro, na fé que em meu corpo guardo, ainda que todas as mazelas do tempo destoem a oração do dia, a homilia, surdas aos cânticos melodiosos da manhã, à brisa que sopra a ternura do amor, manto divino onde abrigo meu interior. Regressa. Com suavidade, sem pressa. Sua luz não escurece. Perpetua-se em cada coração. Resplandece em cada oração, na esperança que o dia oferece. Manhã que nasce feito prece.

Somos!

Invade a minha vida, preenche o meu contexto, poetiza-me em tua alegria, protagoniza o meu texto. Colore a minha paisagem, reacende luzes apagadas, sejas o sol de todo dia, incandesce minhas madrugadas. Floresce meu canteiro triste, vibra o ardor que em mim existe, ruboriza o tom vermelho, refletindo teu corpo em meu espelho. Ama-me de todas as formas em cada instante, o tempo inteiro. Sou tua vontade, tua fome, tua metade. Somos recomeços dos amores verdadeiros.

Enamorada!

Quero entardecer contigo ser o teu abrigo, o final da tarde, o teu arrebol, onde cores descoradas, fracas, embaçadas tornam-se caiadas sem a luz do sol. E, na linha do horizonte, onde o céu se funde com a terra ou o mar, pendurar todos os versos que a própria vida vem nos ofertar: eterna enamorada!

Coração Desajuizado!

Meu coração atrevido desconhece as leis da vida, a gravidade que nos alicerça nessa incrível viagem: voar, levitar, pousar, mudar de patamar. Por mais que tenha vivido nunca se vê abatido, ainda impulsiona o ir embora o físico, sem ar, queira ficar. Não sabe que o tempo passa e a pulsação descompassa, enrosca-se nas entranhas das ousadias, nas retrancas das finitudes de sonhos e utopias. E o coração insiste, jamais desiste. Atém-se ao que prevalece, ao que regozija e entorpece, certo de que assim não envelhece. Quer pulsar, explorar, conquistar. Rende-se à tentação turbulenta, à sedução das paixões fraudulentas que avassalam e se vão, mas sempre deixam lição. Capta qualquer emoção. Acelera o ritmo, sem noção. Encanta-se com quase nada: a brisa que passa, um sonho de valsa, um beijo, uma flor. Vive o que o conforta, o que lhe importa. Coração desconhece razão por ser tão limitada. Rígida na partida, precisa na chegada. Vai, coração, embarque na fantasia, viva o que o extasia. Vai onde hoje não posso ir.

Sem rédeas!

Solto as rédeas. Deixo o pensamento comandar o momento. O importante é me entregar, decolar desse porto sem cais, abandonar o navio, o vazio, caóticas e insolúveis situações. Ir onde ele bem me levar sem temer o que virá, o que verei, o que será. Roletar direções, represar previsões que erram a todo instante, incorrendo em tempestades as imprevisões diárias. Por ora, viajo com meu pensamento liberando endorfina: combustível para meu pensar; oxigênio para meus neurônios, sem saber onde vai dar. Circundando a rosa dos ventos tatuada no tempo, em sonhos e irrealizações, disperso poemas, sentimentos guardados, chorados, calados, inerentes aos temas que já não estão sobre as mesas. Um pouco acima do chão deixo um vão entre o abstrato e o concreto. Talvez uma passagem para algum amor secreto: um decreto publicado em poesia em pleno trajeto. Voo com meu pensamento até onde possa voar. Com ele tenho alento, paciência para me adaptar. E volto resiliência, apta a continuar.

Rupturas!

De repente, a expulsão. Rompe-se o cordão, o calor daquele abrigo. A união umbilical rompida pela contração. O frio, o desconforto, o susto que faz chorar, o ter que encarar a separação. O mundo. De repente, cerra-se a cortina, muda-se o cenário, embaçam-se as luzes, tremula a ribalta de um palco improvisado: perguntas impertinentes, respostas não condizentes, personagens alternadas, história remexida, show irreverente. A vida. E as rupturas se vinculam. Começo de caminhada, o papel, as linhas tortas, o branco sendo tingido, o sentido das palavras, o destino a se cumprir, o tempo a exigir. O tempo. Fase da colheita. Colher o que se plantou. O cultivado, permanece. O resto, esmorece. Bem que se pudesse o tempo pararia. Uma nova chance. Começar o novo. Não, de novo. Carpe Diem. Vem o cansaço, o descompasso, o desejo de parar e a vontade de chorar as partidas, despedidas, amigos, entes queridos, sonhos não vividos truncados pelos caminhos. A realidade. Saudade. Às vezes, a felicidade. Momentânea, raridade. De soslaio ela invade e se vai sem alarde. Reta de chegada. Fim da caminhada. Início de outra jornada? Atrela-se a ruptura. A última, derradeira: ou seria a primeira? Maktub.

Teu Silêncio!

Olho-te bem devagar. Há sempre uma verdade a ser descoberta, uma porta fechada, uma janela entreaberta, uma luz apagada, um brilho varando pela fresta. É preciso desvendar detalhes, tocar teus limites, trocar nossos olhares, concedermo-nos nos ver e, até onde me permites, conhecer o que omites, o que não deixas transparecer, tatear o que me escondes, desabotoar tuas pausas, compreender tuas causas, aceitar-te como és. E no silêncio da resposta que me percorre e corrói mergulhar em tua fala gritante, berrante, calada, que dói mas que ama!

Apelo!

Venha! Venha mais cedo! Venha olhar-me nos olhos antes que fujam, envergonhados, por alguns fragmentos de desejos ousados. Venha! Tenho para você a essência que invade a penumbra. Tenho o aroma dos seus lençóis preferidos. Os mesmos que recendem o infinito e reacendem intensidades. Sei de você antes que se apresente. Apenas sei. Então, venha! Venha sorrir comigo sem saber a razão. Traga-me os seus toques, seus traços únicos. Cruze a linha invisível e torna-me, sem recear, eternidade sua. Maria Luiza Faria

Via Crucis!

E, então, decidi despojar-me de todos pecados, ser meu próprio Pôncio Pilatos, ter meu corpo crucificado. Não para salvar a humanidade: não me crivaria de tamanha dor. Cristo foi mais sonhador. Não, foi mesmo autopiedade, da alma, em busca de serenidade. Caminhei com a cruz a que me impus. Não caí somente três vezes. Foram muitas! Já havia tombado tanto, pelo peso de meu pranto, por minha consciência pesada em não ouvir a voz da razão, nem mesmo a do coração. E, agora, Via Crucis, levo-me à condenação. Fui Verônica. Cantei o meu desencanto, limpei sangue de meu âmago, deixei registrado no pano o meu triste desengano. A Madalena arrependida, pelo homem incompreendida, agora cheia de dores e acatos. Vítima dos desacatos. Tentei levantar-me, ser o meu Cirineu, reacender a chama que um dia morreu. Momento sublime. Maria, mãe que redime. Um encontro, um olhar, nem foi preciso falar. A única expressão: a de nosso coração! Sedenta de amor, bebi o seu mel, desnudei minha alma, arranquei-lhe o véu e chorei. Implorei. Ajoelhei-me e, finalmente, enxerguei uma luz semiapagada, de um sol eclipsado recomeçando a acender.

Crença!

Creio em ti! Antecipa-me o céu. Bem de leve, sem escarcéu, clareia-me a escuridão. Mar de atrocidades, turbilhão, onde a hipocrisia se cria gerando só falsidades e a poesia se esconde em meio à desarmonia. Anseio a paz que há em ti, reviver o que já cri. Abre-me portas, janelas, incita meu voo livre, ampara-me em tuas asas que de junto de mim convive. Preciso do ar que exalas. Ouvir de teu coração a melodia que espalha ressuscitando emoção. Devolve-me a paixão esquecida, me faz forte, guarida. Põe-me diante do novo, de novo, diante da vida. Estanca a minha ferida, sopra de mim essa dor, livra-me de qualquer rancor, devolve a fé que perdi. Só tu podes. Creio em ti, pois és o amor!

A poesia virá!

E a poesia virá nascida de todo lugar: livre, plena, pura, apesar do breu da noite que traça mistérios no ar ocultando a lua insinuante que, através de uma nuvem entreaberta, revela um brilho de sedução, provocando um fascínio ofegante que prontamente despertará. E a poesia virá, quando ao abrir os olhos vir a noite virar dia colhendo toda a alegria da manhã que sugere renascer encobrindo a nostalgia de um sol que se faz poente e languidamente desmaia no horizonte após a tarde, a despedida, e calmamente se vai. E a poesia virá quando a esperança ficar. Ainda que a dor atormente, o mundo tornar-se descrente, o sofrimento teimar em arder queimando o cerne da gente, a alma só ganhos terá lapidada pelo ourives do tempo trazendo a certeza de que passará. E a poesia virá, simplesmente, sem palavras, brandamente, com o silêncio que se fará, traduzido pelo encantamento dos versos que o poeta interpretar, enlevado pela emoção de quem fala sem falar.

Sem Poesia!

Quando acabar a emoção, preponderar a razão, traçarei a minha trilha. Nenhum envolvimento que arrebate, nem a luz que da estrela brilha, nem tudo que se interpõe, de repente, no caminho, e nos propõe um embate, pressionando-me a indagar: fico ou me deixo levar? Nada me fará parar! Quando não houver mais emoção e puder contar com a razão recomeçarei a vida. Direi não ao coração, às armadilhas sutis, artimanhas febris forjadas pelo destino. Às oferendas do mundo, às cores, dores, flores, amores. Seguirei em frente, usarei o tino ilesa a sentimentos profundos. Mas como projetar os sonhos? Sem alvoreceres, como sonhar? Desprezar entardeceres do outono? Sem arrebóis volveriam os girassóis? Os amanheceres, a chance de recomeçar? Pode o poeta viver sem oferendas, belezas que trazem o dia, as dores, os amores, as flores, os sentimentos? Seria negar a todo momento o dom divino de poetizar. Morrer a cada dia, sufocar o que precisa extravasar. Trancar para si a poesia e omisso, se calar. Deixar à deriva os versos, a rima sozinha a bailar. Matar o que alivia, se suicidar!