paginanova

Devaneios!

Aparta-se dos sonhos. Acomoda-se na angústia de ser quem não é. Deixa que a fragilidade se expanda como quiser. Não sabe como torná-los palpáveis. O medo de parecer diferente, destoar-se perante toda a gente vivendo a mesmice peculiar do lugar ganha a frente, imponente. Entrega-se ao pleonasmo repetitivo de dias iguais. Desiste dos sonhos. Sonhar jamais! Tranca-os em uma gaveta de medos. Seus sonhos, seus segredos, seus enredos. Há tanto dentro dela. Palavras que jamais foram ouvidas ditas no silêncio que gritava, ao vento que passava e parava para escutar. Ao tempo que em veloz andança abraçava a marcha lenta dando tempo ao tempo na esperança de mudança da utopia em realidade. Talvez um dia a gaveta se abra (e venha à tona a verdade) pelo acúmulo de sonhos guardados, sufocando os medos, revelando segredos e os caminhos se esparjam dando passagem aos enredos.

Tu podes!

Poetiza-me. Deixa-me respirar teus versos. Livra-me dos poderes adversos. Percorre meu interior. Descreve-me em toda versão. Divulga-me assim. Mora na calma da paz de um coração a pulsar, das manhãs, a canção. Vive teus momentos em mim. Inspira-te em sentimentos que falam do amor que evolui e constrói. Reconstrói-me. Sou fruto de sensibilidades, poço de fragilidades que se apropriam de essências geradas no cerne da alma. Leva-me em tua poesia onde a magia faz crer que o inadmissível estarrece e o impossível acontece. Carrega-me, entorpecida bailarina a deslizar no inusitado de tuas rimas. Cerra a linha do tempo e que nos leve os vendavais a ancorar nos sonhos atemporais. Tu, só tu podes, poeta.

Hoje!

Fico aqui e deixo o mundo para lá. Estática, vejo-o rodar. Livre, com a sensação de não estar. Leve e a impressão de levitar. Ser (im)pensante, esquecida do instante, Isolada do que não posso transformar. Volto-me para mim. Sou corpo no vácuo despejado por alguma turbulência. Não clamo por sobrevivência. Não chego a ser pânico nem solidão. O meio termo define meu padrão. Hoje tiro os pés do chão. Afasto-me do mundo, dou meia volta, driblo os solavancos, os engodos, a revolta. Sou meu próprio piloto a resgatar micropartículas de mim. Que a física quântica, o poder do pensamento ou tudo o que nos conduz, façam prevalecer suas leis, sem distâncias ou anos-luz, e acelerem a teoria do fim. (Ou recomeço.)

Busca!

Busquei na transparência da manhã motivos para desencadear o riso ante a melancolia exposta em cada rosto, a reviravolta de um ideal deposto, como se fora um grito de agonia, um pedido de socorro, uma premonição, um aviso. Busquei no matiz das cores flores para enfeitar o dia, mas o encanto se murchou junto à flor mais recolhida, perfume a desimpregnar rancor diante do desencanto da aflição, e olhares perdidos na mesma direção. Busquei levar consolação, porém o desconsolo fez-se solução e meu alento para mim voltou feito flecha a penetrar o coração sangrando a liturgia da doce ilusão. Ideologia não se muda da noite para o dia, não se vende feito peça de leilão. Eis a questão. Busquei falar através de versos, da poesia que canta o perdão e acalanta os reversos restaurando a união, mas o coração machucado jamais ouve qualquer canção. Recorro ao tempo. Nele busco compreensão, o amor que se desfez ao vento, a paz que reina na exclusão, e retornarão em uma manhã banhada de luz e recomeços, no silêncio da oração.

Quase!

Quase me deixei levar sem ponderar o certo ou o errado, mas o destino tinha o não tramado e entre o certo ou errado o nada aconteceu. Quase gritei meu sentimento no ápice das emoções incontroláveis, mas fiz falar o meu silêncio. Retrocedi ao arrebatamento. Quase consumei cada momento a crescer na volúpia do voraz desejo, no ensejo de mostrar o meu avesso, mas tropecei na incontida urgência de me despir em fatos e argumentos. Quase me opus ao tempo pedindo-lhe um contratempo, um flashback, um alento. Voltar à flor do passado colocada sobre teu teclado em um gesto de ternura, impensado. E olhaste o meu olhar desviado, calado, querendo falar alto. E me perdi no quase, sem jamais me ter achado.

Navega!

Vai, adentra as brumas do oceano, desvenda-lhe os mistérios, arranca-lhe os panos, envereda em seus encantos reais e surreais, constrói os seus castelos, povoa-os de ideais e volta para me buscar.

Talvez!

Talvez o tempo reverta a descrente esperança em certeza e me traga a surpresa de um bem inesperado que nem sempre se alcança. Ou o amanhã retroceda ao ontem ininterrupto que se estende ao futuro. Caminho escuro. E tudo fique na mesma. História que tento mudar, rima que não quer mais rimar, poesia que já não se faz notar. Enfatizada, mastigada, engasgada. Talvez o hoje vivido tenha valido uma eternidade e meu eu distraído não tenha medido tanta felicidade. Nem notou as manhãs de belezas louçãs, momentos desprezados na espera do amanhã que talvez nunca venha ou se faz de rogado. Talvez esses versos piegas sejam fiéis mensageiros do tempo verdadeiro e mensagens sinceras carregando bagagens de sonhos e miragens, gerúndio se estendendo em todos os tempos trazendo-me a chance de continuar sendo, mesmo em um tempo já ido, mesmo sem nunca ter sido.

Mundo!

Sem passaporte, confiando na sorte, meio que se atropelando entre atropelos vagando, junte o que pode juntar e se embrenhe pelo mundo vasculhando o vazio e o fundo, indo aquém e além do que se possa imaginar. Caminhadas aceleradas, um ir e vir sem definição, sem mudanças, mesma direção. "Mens(in) sana in corpore (in) sano” pisando o sagrado, driblando o profano, finitos e infinitos superando sempre viajando, perdendo-se em labirintos, achando-se em círculos, movimentos cíclicos que levam ao mesmo lugar: da chegada, da partida? Quem há de saber? Tanto faz! E nessa roleta-russa denominada vida, há o certo e o incerto e também a sobrevida. Um jogo de azar, a bala não perdida, cartada preestabelecida, vitória favorecida. Sorte? Única certeza: Morte!

Sonho!

Era um sonho inatingível, fora da realidade, das possibilidades de quem só sabe sonhar. Trancado à sete chaves em um cofre no fundo do mar, um mundo à parte imergindo dons de voar, desses que ninguém invade sem estar apto para tanto, guarnecido de encantos, de sentimentos tantos nascidos do âmago para se soltar e chorar pelo que não pode, pelo que não coube e teve que calar tal a vastidão de seu penar. Era um sonho inatingível, praticamente impossível de se realizar. Virar poeta da noite para o dia, perseguir a utopia que não se deixa tocar. Se tocada perde a magia e o sonho vem a desabar. Inatingível. Mas era um sonho. Não podia esmorecer, cair em abandono, desvanecer sem ter visto o sol do alvorecer, beijado a nostalgia do entardecer sentido a primavera nascer. Não podia morrer. Deixar o poeta de mãos vazias, atadas e a alma repleta de poesia, mutilada. Inatingível, mas não impossível. Bastaria acordar e buscar.

Escrevivendo!

Escrevo o dia que se abre e toda a sensação que me invade ao sentir que nunca é tarde e a vida me chama para recomeçar. Escrevo o ato que se predomina ao escrever definitivamente o fim ou inevitavelmente o começo e tende a se emaranhar nas entrelinhas. Escrevo o crível do tosco monjolo ao debulhar com arte o milho e o café. Escrevo do que vejo o que me convier, o que ficou marcado no profundo, lá nos guardados de meu mundo. Escrevo sentimentos, razão de minha fé, arquivados onde, às vezes, mora a dor e só vêm à baila no momento exato em que se rompe o extravasor. Escrevo, descrevo, reescrevo a minha própria vida onde minh’alma está contida. O ontem, o agora, talvez o depois. O instante em que vivo agora, o convívio entre nós dois, as lembranças do outrora, o tempo que me desafia. O resto, escreve a poesia.

Liberdade!

Se faz presente, a liberdade. Onipotente. Súbita. Inopinada. Tão esperada! Em tons de imensa beleza, real singeleza confronta a escuridão da dor. Luz incandescente! Traz esperança. Desativa fendas expostas em solo árido da alma, do ventre, da gente. Pousa em duras pedras. Semeia pétalas. Deixa a abstração, grades de prisão. Metamorfoseia, (e)feito borboleta! Convida a voar. Impacta o ar!

Mudança!

Abandona o cais. Navega. Engole os ais. Enfrenta as tormentas. Tu és capaz. Sai do ventre, rompe a bolsa. Desliza com a expulsão. Respira. Chora. Esperneia. Acata os desígnios da vida. Ela convoca; não convida. Supera idas e partidas, adeuses e despedidas. Recolhe os sonhos. Ainda há. Basta acordá-los e viajar. Escancara a janela. Observa por ela e o mundo está lá. Recomeça. Um dia após outro. Se preciso, hora após hora. Realiza o que te aflora, resgata o que perdeste e te impulsiona a seguir. Deixa pra trás o que não volta mais.